No primeiro turno da eleição presidencial de 2010 no Brasil, o conjunto de votos que compreende o alheamento eleitoral atingiu 27% (18,1% de abstenção e 8,7% de votos brancos e nulos). Os recentes protestos de junho, com forte mensagem de “antipolítica”, indicam que o percentual tende a aumentar.
A conseqüência pouco comentada entre analistas é que tal aumento reduz os votos válidos e fica mais fácil para quem lidera a corrida majoritária atingir 50% mais um dos sufrágios, encerrando o certame na sua primeira fase.
À guisa de exemplo: se em 2010 o alheamento eleitoral tivesse sido de 30%, ao invés de 27%, a presidente Dilma Rousseff teria ganho no primeiro turno!
Os exemplos recentes de antipolítica na América Latina (e em Portugal), onde o povo está indo às ruas em grandes manifestações, reforçam a preocupação com a ocorrência do fenômeno no Brasil.
Por exemplo, a abstenção, apenas para citar um componente da alienação, foi bastante elevada nas eleições presidenciais do Chile (56% no primeiro turno e 53% no segundo) e de Honduras (40%), nas eleições municipais da Venezuela (41,7%) e de Portugal (47,4%), e nas proporcionais da Argentina (25%).
Então, se os impulsos da antipolítica no Brasil forem elevados em 2014, estabelece-se um paradoxo: aqueles que clamam por mudança (2/3 da população, segundo Datafolha e Ibope), querendo que o próximo presidente tenha ações diferentes das praticadas pela atual, podem ser eles próprios o veículo através do qual a incumbente continue no governo!
Explicando:
A presidente Dilma Rousseff, na ultra vantajosa qualidade de incumbente, leva grande vantagem com a diminuição dos votos válidos, pois pode transformar a liderança que exibe nas pesquisas eleitorais em uma menor quantidade de votos suficiente para ganhar no primeiro turno (desde, naturalmente, que o somatório de votos dos concorrentes seja menor do que o total de votos da líder).
Suponha-se que os mesmos 27% de alienação eleitoral de 2010 se repitam em 2014. Neste caso, com o eleitorado projetado para 142 milhões, os votos válidos somariam cerca de 104 milhões. A líder na corrida presidencial precisaria de 52 milhões de votos para faturar o pleito no primeiro turno
Admita-se agora, in extremis (será?), que o total do alheamento eleitoral seja de 40% (13 pontos a mais do que os 27% de 2010). Nesta configuração, os votos válidos seriam de 86 milhões e a líder se elegeria na primeira etapa da eleição com apenas 43 milhões de votos.
Detalhe: em 2010 Dilma teve 47,6 milhões de votos e não se elegeu no primeiro turno...
Outra forma de ver o mesmo problema é através apenas dos votos brancos e nulos.
Os votos brancos e nulos de 2010 somaram 8,7%. Se permanecessem os mesmos em 2014, os votos válidos seriam 91,3% dos votos apurados. A líder precisaria ter 45,6% desses votos para vencer na primeira etapa.
Imagine-se que em 2014 os votos brancos e nulos alcancem o dobro de 2010, isto é, 17,4%. Nesta hipótese os votos válidos somariam 82,6% e a líder ganharia no primeiro turno com 41,3% desses votos.
Detalhe 2: em 2010 Dilma teve 46,9% dos votos válidos e não se elegeu no primeiro turno...
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