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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Magno Martins escreve texto saudosista sobre os seus pais em Garanhuns



Extraído do Blog do Jornalista Magno Martins

Dizem que a tristeza de uma despedida é necessária para que haja a alegria de um reencontro. O reencontro conforta a alma, rejuvenesce o espírito e reacende a capacidade do homem se comover diante da beleza. Dizem também que a saudade não tem remédio quando o tempo passa e a vida vai se perdendo nas águas do nunca mais.

Qualquer reencontro, por mais efêmero que seja, provoca emoções tão fortes porque remete à sensação do primeiro encontro, que ficou lá para trás, no fundo das águas da vida. O reencontro é mais do que isso. É uma ressurreição. Foi assim que minha mãe Margarida, 86 anos, se sentiu ao voltar a Garanhuns, pedaço da sua infância.

Meu pai Gastão, 90 anos, atendeu a um pedido da sua musa inspiradora e com meus irmãos Ana e Augusto a levaram a andar novamente pelas ruas da cidade das flores, respirando cheiro de eucalipto. A cada passo, uma saudade matada. A cada olhar, um riso de felicidade. Em cada gesto, um mergulho no seu passado doce e feliz.

Entre os três e 14 anos, mamãe morou em Garanhuns nos anos 30. Tangido pela seca em Afogados da Ingazeira, seu pai Severo Martins, um homem rude, radical e de poucas palavras, foi tomar conta de uma fazenda na suíça pernambucana. E levou toda a filharada para escapar como retirante de uma das estiagens mais terríveis que se tem notícia.

No Pajeú, seco e esturricado, quem não tinha coragem de debandar para o sul-maravilha, fazia como o meu avô, refugiando-se no Agreste Meridional, mais ameno, onde a vista ainda alcançava o verde e era possível escapar das tormentas da fome.

Não é que meu pai também fez o mesmo caminho na seca de 38! Com cinco irmãos, andando a cavalo, seu exílio voluntário foi Bom Conselho, vizinha a Garanhuns. Meu avô ainda resistiu 11 anos como verdadeiro escravo de um latifundiário na terra dos eucaliptos. Meu pai, não. Regressou ao Pajeú na primeira invernada.

Minha mãe, portanto, viveu toda a sua infância em Garanhuns, regressando para Afogados com 13 anos. Mas por incrível que pareça, embora Garanhuns seja separada de Afogados da Ingazeira por apenas 180 km, ela só voltou duas vezes à cidade: uma numa excursão da terceira idade, há 10 anos. A outra, na semana passada.

Garanhuns e Bom Conselho, para meus pais, portanto, representam o retrato drumoniano, pendurado na parede, que dói muito. Meu pai não quis ir a Bom Conselho, que estava ali ao lado, mergulhar no seu passado, como fez mamãe em sua amada Garanhuns, revendo os canteiros da sua infância.

Mas pouco ou quase nada do passado estava presente. A casa em que morou foi transformada numa galeria; o parque Pau Pombo, agora Ruber Van Der Linder, ganhou feições diferentes. Com os olhos de saudade, reviu uma cidade diferente daquele tempo em que era um mijinho de menina. Assim é a vida: a eternidade mora no fundo do tempo.

Na volta a Garanhuns, mamãe reproduziu o ritual mágico da transformação. Do seu mergulho na saudade se transformou numa menina. Diz o poeta que no seu silêncio profundo a primavera está em gestação. É que no silêncio do fim moram os começos.

Em Garanhuns, o silêncio dela ao caminhar não era de velhice, mas de infância. Ela fez o tempo andar ao contrário, uma criança nascendo do velho. Com os seus olhos de saudade, foi lançando nas águas do tempo as redes da sua eterna infância, para pescar ali tudo que amou e se perdeu.

Mamãe regressou a Garanhuns saudosa. Queria rever os lindos campos em que viveu, em companhia de flores e eucaliptos. Saudade é sempre saudade de alguma coisa: de um rosto, de um lugar, de um tempo passado. Sentir saudade é sentir ausência. E toda saudade é uma espécie de velhice.

Porque velhice é algo que vai crescendo por dentro, do mesmo jeito como num jardim cresce uma flor. Você nunca sentiu isso? Quando sentir, não se aflija. É que os seus olhos estão andando pelos bosques misteriosos onde nasce a saudade.

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